Domingo, 13 de Julho de 2014

A passadeira vermelha: correlatos psicológicos

A passadeira vermelha: correlatos psicológicos

 

Elaboram-se, no presente artigo, correlatos psicológicos relativos à passadeira vermelha.

 

Antes de mais, resuma-se o meu artigo Catar sexual feminino enquanto fobia social      ( Resende, 2012 ), considerando o catar sexual feminino como o sentimento de estar a sugar sexualmente outra mulher, nas relações sociais particularmente sexualizadas entre mulheres. Assim, considera-se nesse artigo que, com a variação do surgimento da menstruação nas várias mulheres, ou seja, o não saberem o quando a outra mulher está menstruada, e em que há o sentimento de estar a sugar sexualmente o sangue de outra mulher, o catar sexual surge como uma ameaça de castração, em que a menstruação fará lembrar o sinal depressivo de perda do pénis já efectuada. Ora, esta ameaça de castração remete-nos para algo fóbico, em que a própria tentará evitar o contacto social, mas em que ocorrerá um deslocamento contra-fóbico, para a mesma ou outras mulheres, fundamentando isso relacionamentos sociais tipicamente histéricos. Ou seja, haverá uma fuga para a frente. Como se diz nesse artigo, esta fuga para a frente é uma das estratégias defensivas utilizadas na fobia, como indicam Houzel, Emmanuelli & Moggio, no seu Dicionário de Psicopatologia da Criança e do Adolescente. Estas características indicam que haverá uma tentativa de controlar externamente a fobia social, já que assim será de mais fácil manejo. Ora, conclui-se que este evitamento e fobia social, com fuga para a frente, ajudará a explicar a sociabilidade típica dos histéricos assim como a superficialidade também típica dos relacionamentos histéricos, em que o movimento contrafóbico dará conta da sociabilidade, enquanto que o movimento fóbico dará conta da superficialidade. E isto considerando o histerismo mais tipicamente feminino.

 

É de considerar agora a passadeira vermelha, com cor semelhante à cor do sangue da menstruação, com essa passadeira associada à passagem por cima dela, com a mesma a ser pisada, e calcada, de celebridades, com o catar sexual feminino a ser típico na mulher e a histeria a ser tipicamente feminina, e considerando os sistemas histéricos capitalistas matriarcais, no âmbito do capitalismo global contemporâneo, com o desejo exacerbado nestas sociedades de visualizar essas celebridades, em particular nas cerimónias precedidas de passagem por passadeira vermelha. Em conjunto, aquele pisar, aquele calcar, transmite, em particular, ao público feminino, o acentuar da superficialidade já referida, acentuando-se desta maneira, em particular com a alta intensidade emocional envolvida nessas cerimónias, uma clivagem, um afastamento dessas mesmas celebridades em relação ao público. Isto também é evidenciado pelo uso típico nessas cerimónias de vestidos de marcas e de estilistas caríssimos, só de acesso a alguns, com elitismo envolvido, acentuando-se, pois, aquele afastamento, aquela superficialidade fóbica, aquele medo, em que temos presente, então, o acentuar de um medo em relação a celebridades.

 

O desejo de visualização destas cerimónias e destas celebridades, para além de envolver uma vivência masoquista, de querer continuar a viver em medo, envolve uma fuga para a frente, que caracteriza parte do sistema fóbico, como Houzel, Emmanuelli & Moggio ( Coord. ) ( 2004 ) nos dizem, de aproximação/evitamento, em que o evitamento estará presente no também masoquista sentimento deste público, em geral, de que aquela vida é para as celebridades, que nunca terão aquela fama, evitando, desta maneira, uma identificação contínua com as mesmas celebridades, descontinuidade essa que estará presente na necessidade exacerbada deste público de saber, conhecer, visualizar, ler, etc., sobre novas estreias de obras, intervenções, filmes, concertos, etc., dessas celebridades, ou relativo a elas, e de novas celebridades, em que temos a novidade nessa descontinuidade.

 

O também conhecido desejo, eventualmente exacerbado, nessas sociedades de querer ter fama, de ser uma celebridade, particularmente no público jovem, envolverá uma grande fuga para a frente, no enquadramento fóbico, em que o sujeito desejará, inconscientemente, ou mais ou menos conscientemente, ser também temido, em que aqueles que têm esse desejo quererão ter o poder, com temor envolvido, de influenciar os outros, de influenciar as massas, o que revela nestes sujeitos um sentimento de falta de controlo, dos acontecimentos, particularmente, perante celebridades, sentimento esse que enformará o evitamento do sistema fóbico.

 

Esta descrição indicará que aqueles que querem e desejam ser celebridades, em geral, sentem temor fóbico daqueles que manifestamente admiram, e querendo ser temidos, quererão fazer uma espécie de vingança fóbica, manifestada, por exemplo, nos anúncios feitos amiúde, a outros, de que um dia vingarão, que serão bem sucedidos.

 

O que é descrito no artigo também será válido para celebridades políticas, em que o medo em relação às mesmas enformará identificações muito peculiares do público em relação a esses políticos, em que quanto mais medo maior identificação, em que a fuga para a frente caracterizará, por exemplo, importantemente, o voto nos mesmos.

 

As descrições feitas têm particular importância no público feminino, em particular, e em histéricos, em geral, e isto pelo já dito.

 

 

Bibliografia

 

Houzel, D., Emmanuelli, M. & Moggio, F. ( Coord. ) ( 2004 ). Dicionário de Psicopatologia da Criança e do Adolescente. Climepsi Editores

 

Resende, S. ( 2012 ). Catar sexual feminino enquanto fobia social em www.psicologado.com ( proposto a 06/2012 )

publicado por sergioresende às 10:41
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