Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014

Segundo complemento a O sobrecompensatório na mulher

Faz-se, neste artigo, um complemento ao meu artigo O sobrecompensatório na mulher ( Resende, 2012 ), no qual se indica que na linha da questão básica da mulher da inveja do pénis, ocorrem sobrecompensações várias, para compensar a falta do pénis, este enquanto falo, com sobrecompensações falo-narcísicas, com a histeria mais tipicamente feminina, tendo uma organização básica oro-fálica.

 

Refira-se, de Dicionário de Psicopatologia da Criança e do Adolescente [ Houzel, Emmanuelli & Moggio ( Coord. ), 2004 ], que, segundo D. Anzieu, no contexto do ego-pele e envelopes psíquicos, na patologia histérica, ocorrem falhas ao nível do escudo para-excitações e individuação, que lhes estão associados, por constituirem a base destas funções, estabelecendo precocemente a relação do indivíduo com o mundo exterior. Exemplo sobrecompensatório relacionado com estes aspectos do ego-pele é a pintura cosmética, que servirá como barreira protectora e deflectora, tendo nós também o exemplo nessa linha das tatuagens e dos piercings.

 

Verificamos, assim, que no histérico, com estas falhas, há maior dependência de estímulos externos, com maior dependência de campo, portanto.

 

Ainda daquele meu artigo, há indicações que no uso de acessórios, em particular, brincos, colares e pulseiras, há a ocorrência das sobrecompensações referidas, em que se conclui que a utilização de acessórios estará relacionada com um sentimento de inferioridade narcísica, em que adornos e importância excessiva atribuída ao aspecto externo compensarão esse sentimento.

 

Assim, importantemente, para este artigo, temos que o gosto bastante predilecto de mulheres, de resto conhecido, em particular da histérica, sendo a histeria mais tipicamente feminina, de brincos, colares e pulseiras brilhantes, de diamantes, de ouro, etc., revela, na maior dependência dos estímulos externos, uma sobrecompensação em relação à assimilação excessiva da escuridão do espaço sideral, que contribuirá para tendências depressivas na histérica, que tentarão ser contrariadas pelo uso de tais acessórios. Quanto a estas tendências depressivas na histérica, refira-se o meu artigo Angústia depressiva como enquadramento borderline da personalidade histérica ( Resende, 2012 ), no qual digo que tendencialmente na mulher surge uma angústia depressiva, de uma angústia de certeza de perda do pénis já efectuada, o que só vem a ser confirmado em fantasia pela menstruação, o que nos remete para uma angústia de perda do amor do objecto, já que, em fantasia, o objecto terá sido responsável pela perda do pénis. Em relação ao sentimento de inferioridade narcísica, referido anteriormente, dir-se-à que as tendências depressivas originadas na escuridão do espaço sideral causarão uma diminuição correspondente da auto-estima, que surgirá, intui-se aqui, da vastidão desse mesmo espaço, em que temos, precisamente, a mulher a sentir-se pequena, ou demasiado pequena.

 

Um aspecto mais que nos interessa, e referido naquele artigo d’O sobrecompensatório na mulher, é a sobrecompensação notória dos óculos escuros grandes. Naquele artigo, indico que a utilização dos mesmos indicam uma sobrecompensação em relação ao sentir-se observada, que podemos contextualizar no síndroma da mulher invisível, que nos diz que há uma grande carga de afecto da vivência da mulher no dia-a-dia, antes da menopausa, para ela sentir habitualmente essa diferença após a menopausa, no sentido de se sentir observada, sentido esse que estará relacionado com as características sedutoras da mulher. Ora, no contexto do presente artigo, o uso sobrecompensatório dos óculos escuros grandes denota, particularmente ao sentir-se observada, principalmente durante o dia, uma fuga, em que a mulher tentará, de certa maneira, utilizar a escuridão associada à noite, que corresponderá à visão tida com os óculos postos, e esconder-se atrás dos óculos.

 

Parece haver aqui algum equilíbrio entre a utilização depressiva da escuridão dos óculos escuros grandes e a sobrecompensação anti-depressiva do uso de acessórios brilhantes, sendo curioso que, com frequência, este tipo de óculos têm lentes com alguma claridade, o que poderá corresponder a tal equilíbrio, ou seja, entre o sentir-se observada e a assimilação depressiva de estímulos externos.

 

Outro exemplo importante das tendências sobrecompensatórias da mulher, derivadas da inveja do pénis, é o cabelo comprido, incluindo a moda e o hábito de usar extensões no cabelo, geralmente, nas mulheres mais jovens, por contraponto ao habitual cabelo curto das mulheres mais velhas, em geral, pós-menopáusicas, porquanto nos homens há o uso geral de cabelo curto.

 

Poder-se-à dizer que manifestamente a mulher mais velha terá o cabelo curto, por não querer demonstrar, particularmente em termos de idade e culturais, tendências em querer seduzir homens, mas também temos o contraexemplo de que as mulheres mais jovens, quando arranjam companheiro e/ou quando se casam, não têm a tendência de encurtar o cabelo.

 

Intui-se aqui que haverá uma sobrecompensação para fazer parecer a cabeça maior e, implicitamente, o cérebro, numa linha evolutiva adaptativa, à guisa de manifestações animais de engrandecimento do corpo para melhor enfrentar o adversário, neste caso, na guerra dos sexos, sobrecompensação essa, portanto, devida particularmente a algum trauma transpessoal histórico devido ao também histórico domínio tendencial dos homens em practicamente todas as culturas e ao exemplo de as obras científicas, literárias, filosóficas, artísticas, etc., que foram sendo deixadas serem de homens. Tenha-se também a noção da tendência anatómica de em geral o cérebro do homem ser maior do que o da mulher. Haverá um questionamento histórico por parte da mulher do porquê do domínio referido por parte dos homens, intuindo a mesma que parte importante da razão se deverá a diferenças ao nível do que foi sendo considerado elemento crucial para funcionar e produzir, ou seja, o cérebro. Ocorrerá, desta maneira, a sobrecompensação com o aumento do tamanho do cabelo, para fazer parecer aumentar a cabeça e o cérebro. Com a extensão do cabelo comprido para baixo, haverá como que uma miscegenização da cabeça e resto do corpo, em que o corpo também é utilizado sobrecompensatoriamente, e é tido como um corpo-falo por excelência, como que aumentando o engrandecimento da cabeça. Mas base importante para a sobrecompensação será a menstruação, que fará lembrar à mulher o sinal depressivo da perda do pénis já efectuada. E isto, importantemente, por a  mulher pós-menopáusica, perdendo o período no processo, ter a tendência de ter o cabelo curto, intuindo nós, que com a perda do período, perde o motivo, particularmente em termos de carga afectiva, para sobrecompensar a cabeça e o cérebro, já que se sentirá menos diminuída em relação ao homem.

 

Ainda com sobrecompensações falo-narcísicas, derivadas da inveja do pénis, temos o exemplo do uso, por parte da mulher, de sapatos de salto alto, em que a mulher quererá parecer maior, em que, por assim dizer, quererá nas pontas dos pés chegar à figura paterna, à guisa da criança que tenta chegar ao pai, querendo fazer-lhe parecer de que é maior do que realmente é, revelando sentir-se diminuída perante essa figura, sentimento que derivará da inveja do pénis e revelando ao mesmo tempo carências afectivas, ao tentar chegar à figura paterna.

 

Estes foram, portanto, mais alguns exemplos das tendências sobrecompensatórias da mulher, derivadas da inveja do pénis.

 

 

Bibliografia

 

Houzel, D., Emmanuelli, M. & Moggio, F. ( Coord. ) ( 2004 ). Dicionário de Psicopatologia da Criança e do Adolescente. Climepsi Editores

 

Resende, S. ( 2012 ). Angústia depressiva como enquadramento borderline da personalidade histérica em www.psicologado.com ( proposto a 12/2012 )

 

--------------- ( 2012 ). O sobrecompensatório na mulher em www.psicologado.com          ( proposto a 12/2012 )

publicado por sergioresende às 10:53
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