Domingo, 5 de Janeiro de 2014

O riso e o sentimento de aceitação divina

Descrevem-se, primeiramente, algumas caracterizações do riso e do sorriso, do ponto de vista descritivo e evolutivo, para depois se relacionar os mesmos com a agressividade e o choro, seguindo-se para uma análise de uma obra literária com pertinência para as sociedades contemporâneas, onde se associa o riso e a divindade, concluindo-se com o estabelecimento de uma relação entre o riso e o sentimento de aceitação divina.

 

Vejamos, inicialmente, indicações de um blog, na revista de psicologia estado-unidense, Psychology Today, e autorado por Gil Greengross, com o título The Long-Lasting Effect Of a Smile, publicado em 18 de Abril de 2011, com o endereço electrónico www.psychologytoday.com/blog/humor-sapiens/201104/the-long-lasting-effect-smile, consultado em 03/01/2014.

 

O autor diz-nos que nos primatas, há duas expressões distintas que são consideradas homólogas do sorriso e riso humanos. Assim, a amostragem silenciosa de dentes a descoberto é equivalente ao sorriso humano e parece servir como uma função de apaziguamento ou como um sinal de submissão após uma luta. A boca aberta relaxada equivale à gargalhada humana e está mais relacionado com o comportamento de brincar. Ambos os tipos são encontrados em numerosos e distantes primatas e significarão provavelmente a origem evolutiva do sorriso e gargalhadas humanos. Repare-se que Charles Darwin ( 2006 ), em A expressão das emoções no homem e nos animais, diz-nos que facilmente o sorriso passa ao riso.

 

Greengross diz-nos, ainda, que nos humanos tendemos a distinguir geralmente dois tipos de sorrisos: o sorriso Duchenne e o sorriso não-Duchenne ( nomeado a partir do neurologista francês Duchenne de Boulogne que primeiro os estudou ). O sorriso duchenne é o sorriso genuíno e honesto, aquele que dá verdadeiro prazer. O sorriso não-Duchenne é o sorriso falso, que é usado para satisfazer outros mas que não dá a boa sensação associada com um sorriso verdadeiro.

 

Estabelece-se agora relação entre riso e agressividade.

 

Veja-se O palhaço de circo e a depressividade histérica ( Resende, 2012 ), no qual digo que a função social do palhaço é, através do riso, facilmente identitário na infância, catarticamente modular a agressividade, nas actuações habituais dos palhaços, para que na vida posterior do indivíduo, a agressividade esteja modulada, e possa ser eventualmente sublimada. Temos que, no aqui dito, nos exemplos utilizados no artigo, o sorriso e o riso são manifestações de que a agressividade não foi suficientemente modulada e são utilizados a serviço da agressividade.

 

Vejamos agora relação entre o riso e a agressão tal como considerados por Konrad Lorenz, famoso etólogo, no seu On Agression ( 2002 ). “ In any case it is tempting to interpret the greeting smile as an appeasing ceremony wich… has evolved by ritualization of redirected threatening. “ ( p. 173 ). Vemos, então, aqui uma associação entre sorriso e agressividade, ou a mesma implícita na ameaça, que é então redirigida apaziguadoramente, através do sorriso. Para mais, no mesmo livro lemos: “ When several fairly primitive individuals, such as small boys, laugh together at one or several others not belonging to the same group, the activity, like that of other redirected appeasement ceremonies, contains quite a large measure of aggression directed towards non-members of the group. “ ( p. 173 ). Vemos, aqui, como no exemplo do      “ palhaço da turma “ ou do grupo, gozando sadicamente outros, que haverá uma regressão do riso para a agressividade não modulada, não necessariamente física, já que o mesmo sorriso e riso perderam o seu valor ritualístico. Ainda noutra citação, temos: “ … laughter, like greeting, tends to create a bond. From self-observation I can safely assert that shared laughter not only directs aggression but also produces a feeling of social unity. “ ( p. 173 ). Temos aqui, então, nesta ligação do sorriso ou gargalhada dirigindo agressividade como produzindo sentimento de unidade social, uma associação com o que considero aqui ser o sorriso e o riso um mecanismo de ataque, mecanismo esse como descrevo em Mecanismos de defesa e Mecanismos de ataque ( Resende, 2010 ) e Enunciação de Mecanismos de ataque ( Resende, 2010 ), em que tendo o sorriso e o riso como reacções mais histéricas, e sendo dois dos mecanismos de ataque o controlo histérico e a projecção histérica, da agressividade, o sorriso e a gargalhada surgirão e funcionarão, ao nível da projecção da agressividade, para manter o socius, os relacionamentos interpessoais e os fenómenos de massas, mantendo e preservando a unidade dos mesmos.

 

Agora, relaciona-se o riso e o choro.

 

Considere-se, evolutivamente, o riso próximo do choro, tal como aprendi, durante a licenciatura, sobre a relação antropológica evolutiva entre o riso e o choro. Assim, nesta relação entre riso e choro, vemos, em A expressão das emoções no homem e nos animais, Darwin ( 2006 ) a dizer-nos que o acto de rir até às lágrimas é comum a todas as raças humanas, dizendo, para mais, que a gradual aquisição do hábito de rir, por parte dos bebés, é de certo modo análoga à do choro, insistindo que a práctica é um requisito essencial para os movimentos normais do corpo, como o andar, por exemplo, e que o mesmo parece suceder com o riso e o pranto. Aquele aspecto muito particular do chorar a rir,  importante no contexto deste artigo, é mais esclarecedor se seguirmos o princípio de antítese que Darwin segue, que nos diz que se certas acções tiverem sido regularmente executadas sob um determinado estado de espírito, haverá uma forte tendência instintiva para a execução de acções directamente opostas sob o estímulo de um estado de espírito oposto.

 

Nesta relação entre riso e choro, considere-se, importantemente, que o mesmo choro terá o significado psicológico de chamar a atenção do outro, em particular para ser cuidado.

 

Relembrando que Darwin ( 2006 ) nos diz que o sorriso facilmente passa ao riso, voltemos ao exemplo paradigmático do “ palhaço da turma “ ou do grupo, que remeterá para o sorriso não-Duchenne, falso, para satisfazer outros, que não estando associado a um verdadeiro prazer se conjuga bem com as características descritas a seguir, diremos, dizia eu, que o mesmo terá este comportamento, de dirigir a agressividade, gozando sadicamente outros, para se sentir desejado, aceite, querido, pelos outros, revelando carências afectivas, com necessidade de receber atenção, em que quanto mais quer rir e fazer rir mais revelará o quanto não se sente aceite pelos outros, reiterando-se, aqui, a importância das indicações já dadas de Lorenz, e as minhas quanto ao riso enquanto mecanismo de ataque, e o aspecto da regressão do riso para a agressividade não modulada, com o riso a perder o seu valor ritualístico.

 

Temos, agora, a referência importante nas sociedades contemporâneas, histéricas capitalistas matriarcais, no contexto do capitalismo global, do paradigma da obra de Umberto Eco, O Nome da Rosa, que remete para algo psicótico, forclusivo, pela diminuição da importância do nome do pai como suporte da função simbólica, relação esta, quanto ao nome do pai e suporte da função simbólica, revelada por Lacan, em Escritos ( 1996 ), considerando Rosa nome de mulher, relativo à mãe, portanto. Outra das essências da obra é o arrogar do poder rir de Deus, que, no contexto do artigo, revela uma tendência, já referida, de regressão ao nível da espécie do sorriso e riso para agressividade não modulada, já que se se ri de Deus, ao nível sádico, em que o riso perde o seu valor ritualístico, e uma tendência psico-histórica, transpessoal, de a mulher, enquanto género, não se sentir aceite por Deus, não desejada e não querida por essa entidade, considerando a relação já referenciada entre riso e choro, como com a agressividade, em que o choro significará chamar a atenção do outro e carências afectivas, e em relação à agressividade haverá necessidade de ser aceite. Isto, particularmente, nas sociedades cristãs, tendo em conta, importantemente, que a Bíblia cristã nos diz, entre outras coisas, que a mulher é inferior ao homem, devendo a primeira obediência estrita ao mesmo. Temos ainda o exemplo de na Igreja Católica, em particular, as mulheres estarem completamente excluídas das hierarquias eclesiásticas.

 

Estas últimas indicações dão apoio ao desenvolvido neste artigo, quanto à relação entre riso e sentimento de aceitação divina.

 

 

 

 

Bibliografia

 

Darwin, C. ( 2006 ). A expressão das emoções no homem e nos animais. Relógio D’Água

 

Greengross, G. ( 2011 ). The Long-Lasting Effect of a Smile in www.psychologytoday.com/blog/humor-sapiens/201104/the-long-lasting-effect-smile, consultado em 03/01/2014

 

Lacan, J. ( 1996 ). Escritos. Editora Perspectiva

 

Lorenz, K. ( 2002 ). On Aggression. Routledge

 

Resende, S. ( 2010 ). Mecanismos de defesa e Mecanismos de ataque em www.redepsi.com.br, na secção Artigos/Teorias e Sistemas no Campo Psi em 15/10/2010

 

--------------- ( 2010 ). Enunciação de Mecanismos de ataque em www.redepsi.com.br, na secção Artigos/Teorias e Sistemas no Campo Psi em 14/11/2010

 

--------------- ( 2012 ). O palhaço de circo e a depressividade histérica em www.psicologado.com ( proposto a 12/2012 )

publicado por sergioresende às 11:47
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