Terça-feira, 5 de Março de 2013

O sado-masoquismo e suas relações com a introjecção e a projecção

Resumo inicialmente o artigo A posição castrativa como complemento das posições modificadas de Melanie Klein ( Resende, 2010 ), para depois utilizar noções aí desenvolvidas, e relacioná-las com ideias de Wilhelm Reich e Sigmund Freud sobre o sado-masoquismo.

 

Assim, temos que, no artigo referido, proponho a modificação de características básicas das posições esquizo-paranóide e depressiva de Melanie Klein, introduzindo depois mais uma posição, a castrativa, embora esta introdução não interessará tanto para o presente artigo. Enquadro aquelas posições modificadas em organizações de personalidade.

 

Temos, então, que Klein considera que a posição esquizo-paranóide se caracteriza predominantemente por conteúdos projectivos. Utilizando as noções de Bion de continente e conteúdo, na relação mais precoce, o bebé projectará os conteúdos e a mãe funcionará como continente, receptora dos conteúdos.

 

Passo a indicar o funcionamento do bebé enquanto continente e da mãe enquanto originadora de conteúdos. Nesta fase mais precoce, há a primazia da erogeneização da boca através do seio, enquanto fornecedor de alimentação  e, portanto, de conteúdos a incorporar. É de realçar, na observação clínica e quotidiana, a voracidade buco-visual do bebé, nesta fase precoce. Considera-se, para mais, que um fenómeno como a toxicodependência, em que há a consideração clínica de caracterizar-se por fixações orais, como, por exemplo, o tabagismo, terá características mais introjectivas do que projectivas. Ainda, a paranóia persecutória, presente na posição esquizo-paranóide, terá características introjectivas que fariam descrever esta paranoia persecutória como uma introjecção persecutória. Assim, o bebé introjectaria persecutoriamente ansiedades e angústias projectadas pela mãe. Continuando, a posição esquizo-paranóide se caracterizará mais por conteúdos introjectivos do que projectivos. Deste modo, ter-se-ia a estrutura psicótica caracterizando-se mais pela introjecção.

 

Já a posição depressiva, que segundo Klein, se caracteriza mais pela introjecção, pelo movimento introjectivo das características do objecto externo, terá outras características, tendo em conta a sua relação com organizações de personalidade. Assim, estabelece-se um paralelo com a organização borderline, por esta ter por fundamento quadros depressivos, em particular de abandono e de desamparo. Haverá relação entre depressividade e posição depressiva, em que esta posição se caracterizará mais pela projecção do que pela introjecção. É que a economia depressígena básica, de afecto dado e não correspondido, terá características projectivas. O afecto é dado, é externalizado, sendo, portanto, mais projectivo do que introjectivo. Enquadra-se, para mais, o vazio depressivo do histérico e a externalização verbal agressiva típica no histérico, pela agressividade fálica, de características projectivas, no quadro de características psicóticas, portanto num quadro borderline, como se pode ver, por exemplo, nos meus artigos Complexo de Anti-Cristo – Perspectiva Psicodinâmica e Mecanismos de defesa e Mecanismos de ataque. Aquela externalização verbal agressiva fálica, típica no histérico, enquadrado em características psicóticas, portanto num quadro borderline, deverá ser considerada enquanto meio transitivo na passagem das características psicóticas para as características mais histéricas.

 

Mais para o presente artigo, é de ter em conta a noção básica de sado-masoquismo de Wilhelm Reich, que no seu Character Analysis ( 1990 ) nos indica que o masoquismo é baseado num sadismo original. É de notar que Sigmund Freud [ citado por Apostolides ( 1999 ) ] tem ideias semelhantes. Ele considerava que o sado-masoquismo é patológico e que as pessoas tornam-se masoquistas como uma maneira de regular o seu desejo de sexualmente dominar outros. Para além disso, o desejo de se submeter surgirá de sentimentos de culpa pelo desejo de dominar.

Relembrando o artigo anteriormente resumido, em que considero que a persecução é mais introjectiva, em que o bebé introjecta as ansiedades da mãe, e que a depressividade é mais caracterizada pela projecção, temos que o bebé terá introjectado inicialmente o sadismo da mãe, e começado ele próprio a caracterizar-se desse modo, e em que depois começará a projectar depressivamente o masoquismo. Começará a vivenciar situações masoquistas, particularmente na linha histérica, especialmente pelas consequências da projecção depressiva, da externalização, mais ou menos verbalizada, agressiva.

 

Considerando os meus artigos Angústia depressiva como enquadramento borderline da personalidade histérica ( Resende, 2012 ), O palhaço de circo e a depressividade histérica ( Resende, 2012 ) e, principalmente, O sobrecompensatório na mulher             ( Resende, 2012 ), temos que, com base na angústia depressiva, pela certeza de perda do pénis, com angústia de perda do amor do objecto, em que este é considerado responsável por aquela perda do pénis, ou com identificação maciça, em fantasia, com a mãe castrada, onde também ocorre angústia de perda do amor do objecto, já que há um sentimento de que o filho, ao nascer, castrou a mãe, fantasiando o filho de que a mãe se quer vingar, como se pode ver em A guerra militar no homem fascista                  ( Resende, 2013 ), há, dizia, sobrecompensatoriamente, uma continuada vivência em situações masoquistas e de condutas de insucesso, particularmente pelas consequências da projecção verbal agressiva, típica no histérico. É essa projecção agressiva que é sobrecompensatória, para compensar a agressividade dirigida sobre o próprio, introjectada anteriormente, que caracterizará o movimento depressivo ou tendência para entrar em depressão. Temos, pois, vivências masoquistas associadas a uma luta anti-depressiva. Para mais, denotando, especialmente, perturbações ao nível do escudo para-excitações, o histérico continua a depender grandemente dos estímulos externos, e a viver situações consideradas pelo próprio, latentemente, de dificuldade em lidar com uma excessiva carga de estímulos.

 

Finalizando, temos que as ideias de sado-masoquismo de Reich e de Freud, pelo descrito, apoiam coerentemente as modificações que introduzi às posições de Klein, particularmente ao funcionamento inicial do bebé enquanto continente e da mãe enquanto originadora de conteúdos, compreendendo-se, assim, a introjecção inicial do bebé do sadismo da mãe, com identificação do bebé com esse sadismo original, desenvolvendo, ao mesmo tempo, características masoquistas, na relação com o sadismo da mãe, projectando, posteriormente, e depressivamente, esse masoquismo. Isto no âmbito da dialéctica sado-masoquista e da vinculação intergeracional, em que, coerentemente, temos que de uma mãe sádica surgirá um indivíduo masoquista, englobando-se, desta forma, a noção de um masoquismo como derivando de um sadismo original.

 

 

Bibliografia

 

Apostolides, M. ( 1999 ). The pleasure of pain in Psychology Today, Sep/Oct 99, Vol. 32 Issue 5, p. 60 6 p. 5 color photographs

 

Reich, W. ( 1990 ). Character Analysis. Farrar, Straus and Giroux

 

Resende, S. ( 2010 ). A posição castrativa como complement às posições modificadas de Melanie Klein em www.redepsi.com.br, na secção Artigos/Teorias e Sistemas no Campo Psi em 08/11/2010

 

Resende, S. ( 2012 ). Angústia depressiva como enquadramento borderline da personalidade histérica em www.psicologado.com ( proposto em 11/2012 )

 

Resende, S. ( 2012 ). O palhaço de circo e a depressividade histérica em www.psicologado.com ( proposto em 12/2012 )

 

Resende, S. ( 2012 ). O sobrecompensatório na mulher em www.psicologado.com         ( proposto em 12/2012 )

 

Resende, S. ( 2013 ). A guerra militar no homem fascista em www.psicologado.com       ( proposto em 01/2013 )

publicado por sergioresende às 09:52
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